quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ser... professor nos dias que correm

Desenganem-se já! Ser professor não é ter mais férias dos que os outros, nem sair do trabalho uns dias às cinco ou às três horas, para depois em casa continuar a trabalhar até os olhos arderem.
É mais, muito mais. É abraçar causas e consequências dos nossos atos, condutas e postura. É igualmente aprender. É também experienciar ao longo de toda uma vida, mágoa, decepção, frustração, medo, nervosismo, ansiedades, vitórias, gratidão e até mesmo humilhação.
Já me aconteceu de tudo isto. E aqui continuo ao longo de três décadas a acreditar que o meu Coração está certo e bem posicionado dentro do meu corpo.
É também a responsabilidade para com pessoas. Muitas. Alunos, pais, colegas, chefes, parceiros, colaboradores e Comunidade.
Não se nasce professor, tal como não se nasce ensinado. Um Curso, não nos trás sabedoria nem discernimento. Tens de viver toda uma vida, trilhada debaixo de dias de sol e chuva para saberes que fazes o que tens de fazer, da maneira que fazes, porque acreditas em ti e na diferença que podes fazer no mundo, nem que seja no mundo de uma só e única pessoa. De quando em vez.
Esperas, desejas que ao longo do caminho te cruzes com pessoas que pensam como tu. Que se guiam pela verdade. Que lutam para sair da memória de dias difíceis. Que continuam a ter crenças. Crenças de um Mundo melhor. Seguro. Consciente e verdadeiro. Esse mundo que tu com o teu esforço, os teus medos e inseguranças, vestidas de força, de empenho e resiliência vão ajudando a construir, dentro de cada jovem ou criança que por ti passa, que te desafia, que te assombra as noites e dias mas que te faz querer voltar sempre a entrar com um passo trémulo e seguro ao teu local de vida e de trabalho: a escola.
Desenganem-se já se pensam que me arrependo. Desenganem-se se pensam que eu não poderia estar a fazer outra qualquer coisa na vida, podia, mas, escolhi há muito muito tempo que queria ser.. professora.
Anotem estas palavras, sublinhem o que mais relevante vos parecer, critiquem e reflitam sobre as vossas vidas. As vossas escolhas. E digam-me lá se  o trabalho, qualquer que seja,  não nos faz de ouro e prata.
Se temos de o fazer, que o façamos dignamente. Lição número um!

sábado, 2 de dezembro de 2017

Noite épica

É hoje a noite da minha emancipação.
Rodeio-me de estrelas, para que não falte brilho.
Solto os cabelos ao vento para que de longe as areias dos desertos se perfumem e dancem no sigilo da escuridão.
Atiro beijos aos pássaros que arrulham nos parapeitos vizinhos curiosos.
Danço em bicos dos pés, com ares de princesa, sem coroa.
E abro os meus braços, o meu peito em sorriso, à noite que me cerca e digo-lhe que me abrace. E enlace.
E danço esta dança conquistada, de lutos já passada, rejuvenescida, louca e endiabrada. Sou chuva e tempestade, aliada da verdade. Sou poeira afugentada e a lua revelada jubila de alegria e as fontes, as aves, os ninhos e beirais congelam no tempo. Aguardam em cumplicidades, olham-se quase humanas e reconhecem na loucura a sanidade. E riem de verdade.
O som cresce. Desenha-se nas esquinas, emerge das sarjetas, inspeciona os jardins, questiona os ruídos e escurece a cidade. E eis que o coração que bate em uníssono, a cada compasso, cresce e enobrece. A cidade às escuras. O caos aguarda. E na varanda ela dança, em sintonia com os elementos. E rodopia. E flutua. E sobe ao topo dos arranha céus. E convida o mundo e o firmamento para a festa. E as nebulosas.
Não existe vivalma por perto.
O universo está atento.
É o teu renascimento Mulher. Emancipada. Livre de pecados e parvoíces. Com gestos e emoções geridas. Solta de medos. Pronta para caminhar uma estrada que nunca foi decalcada. Que te levará a destinos desconhecidos, mas teus. Secretos. Serenos. Teus.
Conhece-te a ti mesma. Sem pressas. Ama-te na noite e no dia. Cuida-te.
És tu, finalmente frente a frente contigo. Sem pós perlimpimpins.  Sê tu e basta-te daqui em diante.
Vive o hoje com desapego do amanhã. Deita no fundo do saco os medos e inseguranças e sê tu. Livre e parte à tua descoberta.
O mundo é um lindo lugar para viveres, mas de agora em diante, com verdade!


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Quem te recebe quando chegas a casa, vinda da vida?

Quem te abre a porta? Quem te beija e te fecha a porta  devagar enquanto entras com os teus ares de cansada? Quem tens à tua espera no lar? Na cama? Na vida? Alguém? Ninguém?

Como entras em casa? O que fazes ao lixo do dia que vem agarrado aos casacos, aos gorros, à mochila, à sola das tuas botas?
Como vem a tua alma do dia? Da luta, da estrada, no trabalho?
O que fazes quando chegas a casa?
Tens silêncio ou sons à tua espera? Acendes luzes ou esperam-te velas coloridas a brilhar  no escuro?
Tens aromas na casa que não são teus mas que se tornaram teus? De pessoas, jantares que cozinham baixinho ao lume...?
Rodas a chave e respiras fundo? Ou sorris? Chamas alguém? Por alguém?
Espera-te um abraço ou uma noite longa e silenciosa..?
O que fizeste com a tua vida para teres o que tens? e o que não tens?
Como te equilibras? Como vives?
A vida e os anos para trás trouxeram-te serenidade? Aceitação? Evoluíste? Amas-te e perdoas-te? De todo o mal que te causaste? Consegues?
Lidas bem com stress, agressões, ruídos, barulhos, ambientes que te oprimem, gritos, caras fechadas, pessoas ocupadas? Lidas?
O ritmo dos dias entorpece-nos muitas memórias. traz-nos cansaços e falta de tempo, mas tu, tu tens tempo. Tens esse tempo para pensar, para te equilibrar. Para te abraçares a ti mesma, sorrindo. Para te mimares e limpares com um duche quente e saboroso. Tens tempo em seguida para nutrires pele e alma com óleos que te acariciam e aliviam da secura dos teus dias. Tens tempo para preparar um chá que te ofereces... um jantar que cozinhas simples, devagar, com esperança que te dê alento e alimento. Soltas um incenso, soltas música e preenches um pouco a casa vazia.
E esperas o sono. E tentas dormir o sono. Em algumas noites há lutas, eu sei. Mas outras consegues com chás e vapores quentes dormir tranquila. E deitada na tua almofada, envolta nos teus cabelos já longos sonhas com vidas distantes, sonhas com medos, com paisagens distantes, com conversas que escutaste aqui e ali. Sonhas com histórias. Passadas. Acabadas. Sonhas com os teus pais e filhos. Sonhas tudo e não sonhas nada.
Fecha o dia. Fecha-te. Recolhe. É um lar, o teu lar.
Cuida-te. Um dia mau, não é uma vida má. Foi apenas um dia.
Boa noite para ti. Para mim.

Paragem

Às vezes o meu coração, como que pára. Pára, fica suspenso na imensidade dos segundos, pairando no tempo, sem rede de segurança, sem eira nem beira, só, imensamente, dolorosamente só, no meio do Universo, coberto de pó, vergonha e dor. Este meu pobre coração que não é frágil nem forte, é feito de sangue e veias e memórias e promessas vãs. E de outras coisas também.
Querido Coração, quero falar-te ao teu ouvido, palavras nobres e doces, bondosas para que tu respires tranquilo e te sintas por mim amado e jamais, jamais só e coberto de infame vergonha ou dolorosamente abatido pelas balas dos homens, da sociedade, acusado e ultrajado em praças públicas das mentes das pessoas que não se travam e soltam palavras como cães ferozes na tua querida direção.
Eu estou aqui.
Meu doce e guerreiro Coração, aguenta a intensidade de certos dias e de alguns momentos. É guerra, sim mas tu mantêm-te na paz e serenidade que sabes e conheces, porque juntos já palmilhámos um caminho que nos ensinou técnicas de combate e nos deu estratégias de defesa para a guerra, as guerrilhas e milícias sociais ou sentimentais. A guerra não é tua.Aguenta, Corajoso. Aguente e recompõe-te rapidamente. Porque eu preciso que voltes ao teu ritmo sereno e que respires comigo, de-va-g-a-r.
Já passou, já pa-ss-ou.
Vou abraçar-te o resto da minha noite. Vou encher-te de carícias, aninhar-te, proteger-te, dentro do meu peito para que esqueças e sintas conforto apenas, nem frio, nem o nú da vida, nem nada.
Tu e eu, Coração, não esqueças, tu e eu. Eu olho por ti, tu olhas por mim. Sempre.
Para sempre.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Criar um Filho com os pés na Terra

Hoje, quando for meia-noite o meu filho mais velho festejará os seus 26 anos.
Querido fruto da minha vida, percorremos um caminho cheio até aqui. Daqueles que têm pedras e flores e frutas a amadurecer e que cheiram a noites de Verão e a lenha a queimar nas lareiras.
Este é o nosso caminho juntos, aqui, na Terra. Com o teu mano, mais novo.
Fizeste-te um Homem, de repente, sem que eu disso tivesse tido grande consciência, sobretudo quando éramos três e vivíamos as nossas rotinas diárias juntos que eu bem e mal lá ia organizando.
Cresceste com o coração certo. Com música e sensibilidade lá dentro. E palavras e talentos e uma maneira muito tua de estar na vida, que eu respeito e sobre a qual só posso tecer elogios.
És um jovem homem. Direto, tranquilo, um ser pensante também. Amigo.
Gosto quando me ofereces os teus conselhos, quando me escutas cheio de paciência e quando me dás as palavras tão certas que eu preciso naquele momento de ouvir. Cresço contigo. Como cresço com o teu irmão.
São parte de mim e eu irremediavelmente de vós. De uma célula a seres fantásticos. Nós três bailamos a vida que tivemos, tal como ela se apresentou diante de nós. E conseguimos chegar aqui.
Cada um seguindo na sua pista, morando na sua cidade mas dentro do coração e dos pensamentos, uns dos outros.
Filho meu, o mundo leva-te de mim e tu ao mundo pertencerás mais do que a uma só mãe. Mas, somos, fomos e assim continuaremos a ser três pessoas ligadas, conetadas, num enorme, mega universo sem fim, por laços mais fortes que as amarras dos grandes navios que largam dos portos e atravessam oceanos, como aqueles que nós atravessámos juntos todos estes anos, da minha, das vossas vidas. Continuem a cultivar a magia, as palavras com verdades, os afetos, as partilhas pois atrás dos vossos passos jovens mas tão seguros, seguem os meus, ainda não muito cansados mas cheios de amor por vós. Por tu e por tu.
Traça as tuas pontes, rasga-lhe horizontes e lembra-te que cada pessoa que por ti passa é uma pessoa por ti tocada e tal dá-te a responsabilidade de a veres, mereceres, cuidares e de bem a deixares.
A vida é uma enorme recompensa para quem vive consciente da sua enorme grandeza e beleza.
Faz jus à vida. Faz o teu caminho e lembra-te que todas as pedras que encontrares já eu as beijei para que tu nelas reconheças os meus passos e os teus possas dar sem medo de errar. Porque sou mãe.
E também porque sou mãe assim te deixo estar no Mundo com as tuas escolhas e com o meu ombro para ti. E porque és tu, sei que também tens um ombro para mim.
Beijo te com toda a minha alegria. Que tenhas um lindo dia.



domingo, 16 de outubro de 2016

Porque viajamos?

Porque viajamos?
Porque saímos de nossa casa e nos entregamos à aventura, que é a viagem?
Porque cruzamos céus, mares, estradas, vales e planícies?
Porque vamos ver o mar no fim dos continentes?
Porque ..
Porque a magia da vida nos empurra para fora das nossas conchas e casulos e nos presenteia com o desconhecido, o diferente e nos leva a paragens que amamos logo à chegada e que desejamos e juramos voltar logo num outro dia.
E sorrindo vamos guardando tudo o que a vista alcança e o coração tem capacidade de amar.
E desfrutando vivemos momentos que amamos e que nos custa deixar para trás.
Sair da nossa realidade é uma bênção que muitos repetem e alguns conseguem.
E voltamos cheios de sons e cheiros novos, sonhos e contos que gostamos de partilhar.
De volta às nossas casas com janelas que emolduram o nosso quotidiano, ficamos mais ricos mas ainda assim tristes e necessitamos de olhar para as nossas fotografias e postais, para as recordações que comprámos e carregámos de volta a casa.
Voltar a casa é difícil porque.. viajar é arejar as nossas almas e limpá-las da poeira que no dia a dia se instala. 
Viajar é voltar à infância e à alegria  inocente das "primeiras vezes".
Vamos cansados, desejosos de encontrar algo novo que excite os sentidos e voltamos cheios, retemperados e pensamos.. "encontrei o que procurava? "
Ou perdi-me nos desertos e na beira de novos oceanos que banham outros continentes?
Onde fica a minha casa? 
Habito nela ou ela habita em mim?
Voltei igual ou diferente?
Fui feliz ou vim feliz?
Porque viajamos?
E porque não viajamos para sempre?
Porque vivemos aqui e não ali?
Porque nos contêm as fronteiras geográficas dos nossos países? Porque me contêm a mim?

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Presa à beleza do sul

Tenho esta alma meio cigana meio vagabunda que me prende, desde sempre, à beleza sufocante e ardente do Sul. Porque neste fim de mundo nasci, por aqui fiquei e aqui morrerei com os meus ossos despidos no sal do mar e a minha luz renascida numa grão de areia ou numa onda em tubo que à areia se vai esticar.
Tenho tanto mar dentro de mim, tanto sal, tanto para contar. Se eu pudesse, se eu pudesse renascer não viria ao mundo humana, mas pequena e vibrante com escamas e guelras e sal e sol e seria livre no fundo dos oceanos, nas fossas e pradarias submersas, sem guerras e horas, sem pressas e viveria da chuva das tempestades e alimentar-me -ia de tudo o que nas praias existe de frutas e sementes e seria feliz, para sempre, para sempre.
Tento tanto contar histórias carregadas de lágrimas e pequenas vitórias. Tento oferecer sorrisos, renascidos dos dias de tormentas e por mais voltas que dê com o mundo mais o mundo me diz que seja pequena mas grande de afetos e partilhas e sorrisos com estrelas e flores.
Acredito, continuo, num mundo belo onde o feio nunca há-de entrar e na magia da vida que a morte nunca poderá silenciar ou reduzir em tamanho e grandeza o amor que existe e habita cá dentro, deste  lugar, deste porto de abrigo onde guardo memórias que até aqui me fizeram chegar.
Sou a paixão sem razão de um lugar à beira do mundo que os olhos namoram e os sentidos se toldam sem cessar diante das águas cálidas do sul, do sol e dos pássaros, das correntes e dos barcos que navegam e viajam e que deixam no rasto a saudade e vontade de aqui um dia regressar.
Sul, meu amor, sul meu destino sem rota, meu porto, meu canto, meu amor, minha canção.
Canto-te baixinho nas falésias cedinho, sem gente nem ruído, para que me oiças e escutes nos promontórios perdidos, nas rochas molhadas, toldadas de ventos e cimentadas no tempo.
Canto-te e rezo-te porque me sinto embriagada pela tua grandeza, pelo oceano que me devolve sons e cheiros distantes, pelo mundo que existe no horizonte, onde eu não vou nem viajo, porque aqui estou em casa, em casa.
Sul meu amor, a ti me confesso. Com gritos de dor, com risos e esperança, nesta mágica dança que te ofereço de dentro, cada dia que consigo, da minha vida.
Sul, para sempre. Sul.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O Dia dos Gritos

Hoje é dia de gritar à paisagem.
Há um rugido prestes  a devolver-se à fúria dos elementos, que tem de para lá voltar, para que eu possa sossegar.
Tenho este desejo de fossilizar nas rochas tudo o que me recordo. Até um dia.

O meu coração sofre da erosão das palavras que me atiras.
Todas as poeiras cósmicas navegam à velocidade da luz e convergem para um buraco mais negro que o breu da noite e eu encontro-me lá. As moléculas agitam-se, as placas sacodem o cimento e o meu corpo com todo o sangue, todos os ossos e a pele está a gritar ao Universo. Um grito em uníssono.
Partilhado através de sinapses. Poeiras. Moléculas. Magma. Como um grito perdido no eco.

Vai passar. Vai passar. O grito vai calar-se. Até um dia. Um dia. Um dia.